PELOTAS
O dia amanheceu ensolarado com um vento frio espalhando folhas. Contrariando as previsões meteorológicas, não choveu.
Senti vontade de caminhar pelas calçadas retilíneas da cidade que eu bem conheço.
Voltei no tempo com rapidez. A rapidez que a imaginação permite.
Saí determinada a buscar o que eu, ainda, poderia encontrar no arquivo de memórias do meu computador mental.
Voltei às ruas em que passei há mais de vinte anos com a intenção de rever o passado. Meus passos eram feitos de carinho puro porque tive medo de pisar forte e machucar alguma lembrança. Queria acariciar no coração as cenas que desfilavam frente aos meus olhos com uma precisão invejável.
As calçadas eram as mesmas, apesar de um tanto maltratadas. Estavam impressas nelas, e em mim, idênticas cicatrizes. Essa cidade e eu somos muito parecidas. Suas rugas estão costuradas na minha pele, cresceram no meu corpo, deslizando em minhas veias como um rio de muitas vertentes. Somos constantes e fiéis, simetricamente amoldadas aos que passam por nós, com afeição ou desprezo. Trazemos a obstinação da permanência. Ela, de pedra; eu, de carne, nos identificamos como quem dança ao som da mesma música num abraço envolvente de paixão.
No meu trajeto, as paredes das casas antigas pareciam querer revelar segredos. Pensei nos arqueólogos quando se depararam com escritos mais velhos do que o tempo e se puseram a decifrá-los. Impossível, para mim, descobrir, cientificamente, o que cada porta e janela traz impresso em suas dobradiças e batentes. Deixei, pois, que os ouvidos da alma sorvessem atentos os mistérios que se quisessem tornar descobertos nas entrelinhas do meu caminhar.
O cenário revisitado trouxe a minha presença uma certeza. Tenho tempo para viver mais emoções e criar outras memórias para retornar a essas ruas. Memórias do que faço agora. Memórias dos pedaços de mim mesma que, como cacos de vidro coloridos, forma pouco a pouco, um vitral transparente de lembranças, através do qual pode se ver a silhueta da cidade em que se enraizou o meu coração.
Pelotas, num dia de sol, se enfeitou com calçadas de ouro, paredes de esmeralda e ruas de cristal como a Jerusalém dos tempos bíblicos, descortinando a graça que vive em suas artérias como legado de uma época que pode se renovar a cada dia e sempre.