Espaço entre muros
 onde brincávamos infâncias
 na tarde descuidada.


 Lá fora o mundo estrangeiro
 aqui dentro o universo
 como o inventávamos


 Éramos muitos,
 te lembras?
 a correr no solto
 de mornos verões


 O mundo começava ali,
 as leis ali se resolviam,
 ali ficou também enterrado
 o tesouro de contas do lustre da sala
 (que ninguém nunca mais achou).


 Havia as galinhas
 a ciscarem nervosas
 e os gatos
 a trapacearem no lento.


 E a casa, meu irmão,
 vista assim do pátio,
 era leve como um barco
 a vagar pela noite enluarada.


 Mas nosso quintal era tudo:
 ali as coisas se resolviam,
 ali fazíamos os tratados
 para o resto da vida.


 Por isto, meu irmão,
 agora que nos fomos
 pelos caminhos
 do mundo estrangeiro,
 agora que nos separamos
 pelos destinos vários
 da mesma vida comum,
 eu te digo,
 não fiques triste
 que as coisas são assim
 mesmo,


 tudo passa,
 e a verdade dura
 é que nosso quintal passou,
 mas te consola:
 a vida está sempre
 renascendo nalgum lugar,


 e quem sabe,
 se, de repente, ao abrirmos
 alguma gaveta empoeirada
 de tempo,


 não encontramos afinal
 o mapa
 do nosso tesouro de contas?

JOAQUIM LUIS DUVAL


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