LAS VEGAS
REVELAÇÕES ( I )
Além das fotos que imprimimos durante o período de férias, ficam na retina as marcas de outras tantas que não revelamos no papel. Sensações emanadas de momentos únicos. Entre eles, surge aqui e agora na memória, um em especial: - a chegada, ao entardecer, na cidade mais iluminada do deserto de Nevada, incrustada como um brilhante de proporções imensas num anel de areia.
Vínhamos conversando distraídas, minha irmã e eu, observando a paisagem em volta e a estrada a nossa frente quando, em meio ao cinzento horizonte surgiram as luzes estonteantes de Las Vegas. Nem precisei buscar a máquina de fotografia porque a imagem já estava registrada em mim para sempre.
Visitar Las Vegas com quem a conhece é um privilégio. Nenhum detalhe passa desapercebido. Pois, da primeira vez em que estive lá, deixei de ver e aproveitar toda a riqueza que Las Vegas tem a oferecer, mesmo fora das mesas de jogo.
Bem, fomos direto ao hotel onde nos hospedaríamos, o Treasure Island.
Magnífico! Lá assistimos ao show Mystére do Cirque de Soleil. Fantástico é um adjetivo modesto para qualificá-lo. É, simplesmente, m a r a v i l h o s o! E, ainda, na frente do Cassino aconteceu uma apresentação com piratas, fogos de artifícios e embarcações de época que, também, pode ser assistida todas as noites.
No dia seguinte, munidas de câmeras fotográficas, casacos e guarda-chuvas (chovia muito), saímos para um tour completo pelos principais cassinos da “Strip”, como é chamada a rua principal.
Iniciamos a caminhada, visitando o Venetian. Cópia dos palácios de Veneza com todos os requintes possíveis, onde cantores e gôndolas desfilam pelos canais ao redor dos restaurantes e os corredores do shopping lembram as ruas da cidade histórica dos duques. Sem falar nos afrescos pintados nas abóbadas, de tirar o fôlego.
Passamos pelo famoso e antigo Flamingo que conserva os mesmos traços de sempre com muitas luzes na fachada e, a seguir, entramos no Bally’s, com enormes portas de vidro giratórias e esteiras rolantes.
Caminhando mais adiante, vislumbramos uma reprodução da torre Eiffel. É o Cassino Paris. Extraordinário por fora e por dentro, desde a fonte com estatuetas e o arco do Triunfo, até ao saguão com lustres de cristal e a ponte com as famosas luminárias francesas.
Continuamos debaixo de chuva e de risos, o nosso itinerário na peculiar cidade do jogo e dos espetáculos.
Logo a frente estava o cassino da MGM, lembrando a era de ouro de Hollywood com um enorme leão de verdade enjaulado em pleno salão, entre roletas e mesas de jogos.
Em todos os lugares, impressionou-me a quantidade de gente sentada frente as máquinas de caça níqueis.
Do outro lado da “Strip”, aguardavam-nos mais cassinos para conhecer...
REVELAÇÕES (II)
A rua principal de Las Vegas é chamada de “The Strip”, como já fiz referência na página de domingo do Diário popular, na semana passada.
Depois de palmilharmos um dos lados de suas calçadas, desvendando os mistérios de seus exuberantes cassinos, um por um, até o final, resolvemos almoçar para recuperar as energias e, também, porque a caminhada despertou fome.
Para atravessar, passamos por um viaduto sobre a avenida, evitando o intenso trânsito que parecia maior em razão da chuva que aumentara. Atualmente, os cassinos se interligam, também, por meio de modernos trens, o que facilita o percurso dos turistas e visitantes.
Do outro lado, fomos ver o Luxor, que é uma representação de Tebas, trazendo o Egito e sua civilização para deslumbrar nossos olhos com sua arquitetura e luxo. Ao lado, o cassino Excalibur, levou-nos de volta aos tempos medievais do Rei Artur e da Távola Redonda, nos mistérios do mago Merlin e na valentia dos cavaleiros com armaduras em seus duelos. Um “show” noturno reproduz a lenda sobre a famosa espada cravada na rocha.
Ainda não nos havíamos decidido quanto ao melhor local para almoçar, mas era tão bom estarmos as duas, minha irmã e eu, resgatando anos e anos de distância, nessa travessia pelas ruas e hotéis de Las Vegas, que saciar a fome deixara de ser tão urgente. A sede de retomar as conversas interrompidas, as risadas espontâneas, as lembranças inesgotáveis, a partilha do amor fraternal eram mais sedutoras do que os pratos de um cardápio de restaurante. Fotografias não reveladas no papel: somente, no coração.
As duas, depois de muito tempo, aproveitavam juntas, os momentos que a vida proporcionava como presente especial. Parecia que tudo tinha sido organizado para nos esperar, inclusive a chuva. Parte de um cenário onde éramos as principais personagens. Só nós, as duas Marias, como quando meninas, crescendo sob o mesmo teto, adquirindo tesouros que o correr da existência tornou muito mais valiosos. Memorável o fato de estarmos ali, colhendo do instante o fruto maduro que soube esperar. E era como se nunca tivéssemos estado separadas. Milagre do afeto.
Pois, continuando a peregrinação turística e sentimental, deparamo-nos com uma réplica magestosa dos arranha-céus de New York, que se erguia a nossa frente. Perfeita a criação, retratando a cidade famosa. A estátua da Liberdade, colossal, ostentando a tocha como se fosse um farol olhava-nos com seriedade. No interior do cassino, os corredores imitam as ruas e prédios do início do século. E, num dos restaurantes típicos da cidade, que nunca dorme, almoçamos afinal.
REVELAÇÕES (III)
Ao sairmos do restaurante, no interior do cassino New York - New York, constatamos que a chuva continuava firme e forte. Parecíamos mais, uma dupla de Mary Poppins com guarda-chuvas oportunos ou, uma analogia de Gene Kelly cantando, dançando e rindo debaixo de muita água; o que não nos impediu de seguirmos a travessia.
Passamos pela “ponte do Brooklyn” e estávamos em frente ao cassino Monte Carlo. Palavras sempre serão limitadas ao tentar descrever a riqueza e a elegância desse local. Posso dizer que faz jus ao nome principesco.
Nem chegamos a sair para a rua novamente, pois utilizamos um trem (monorail) confortável, com vista panorâmica que levou-nos até a nossa próxima parada: o cassino Bellagio. Extasiada, admirei a decoração dos jardins orientais com múltiplas plantas e flores coloridas espalhadas entre pequenos lagos e pontes. No saguão principal, havia um enorme e imponente cavalo da dinastia chinesa de um século distante, brilhando como um astro, coberto de recortes de cristal espelhado. Requintado é o melhor adjetivo para colocar ao lado do nome Bellagio.
Começara a anoitecer e era possível ver entre uma vidraça e outra que, apesar da chuva, as luzes lá fora, clareavam as ruas como holofotes. O sistema de calefação do cassino dava-nos a sensação de aconchego, mas descansar e relaxar não estavam incluídos em nossos planos. Saímos para a rua. Uma esteira rolante devolveu-nos à “Strip”, onde assistimos ao show de águas dançantes e fogos de artifício que o cassino oferece todas as noites aos turistas deslumbrados.
Mais alguns passos e estávamos no Caesars Palace. Sem dúvida, é o mais extraordinário dos Cassinos. As vias de acesso ao seu interior são fascinantes pela riqueza dos cenários. As estátuas e os monumentos fazem com que sintamos a Roma dos Cesares ao alcance das mãos. Os corredores e alas transpiram a beleza e o bom gosto em luminárias, móveis e tapetes.
O Mirage localiza-se ao lado e tem como característica as reproduções de selvas e florestas. Um imenso aquário habitado por variadas espécies de peixes é atração imperdível. Um espetáculo com tigres brancos e leões anima a vida noturna do Mirage e de seus visitantes.
Finalmente, de volta ao Treasure Island, escolhemos um restaurante para jantar e, depois, fomos tentar a sorte nas máquinas. Um piano dava o toque de classe ao fundo e a noite dormiu um sono tranqüilo como o nosso. O dia tinha sido especialíssimo.
A manhã trouxe nuvens, mas nenhuma chuva. Fomos em busca de um café e, principalmente, de pão. É isso mesmo! Estávamos com vontade de saborear algum pão parecido com o que é feito no Brasil. Saudade do pão da nossa terra. Depois de rememorarmos tantas coisas, despertamos lembranças gostosas adormecidas que, o fermento do tempo, fazia naquele instante, crescer dentro de nós.
Bem, pão parecido com o nosso, só o francês. Então, fomos até uma padaria e confeitaria francesa em pleno cassino Paris, rindo muito do nosso extravagante desejo.
Foi um dos melhores cafés da manhã que já desfrutei. A revelação dessa foto está arquivada na lembrança. A mesinha de ferro e mármore, as cadeiras acolchoadas, o cheiro bom do pão quentinho saído do forno e desmanchando-se na boca, a companhia da irmã... As fotos das nossas risadas, das observações que fizemos, da cumplicidade do afeto, do som dos nossos passos pelas calçadas molhadas nunca serão reveladas no papel. Só ela e eu podemos vê-las. Essas imagens do coração escapam às máquinas fotográficas e aos laboratórios de revelação.