Algumas vezes sou Maria. Outras tantas sou Alice. Freqüentemente, sou as duas.
Quando sou Maria, arrumo gavetas, organizo papéis, preparo pudim de leite condensado, faço listas de tarefas, executo trabalhos manuais, limpo a casa, lavo roupas, fico com a fisionomia obstinada de quem tem muito a fazer em pouco e restrito tempo. No mais absoluto e completo silêncio, vagueio entre uma ocupação e outra, sem pestanejar ou, sequer, dar lugar a distrações.
Na fase de ser Alice quase tudo muda de figura. Canto, falo pelos cotovelos, meu senso de humor vem à tona e fico tal qual bateria de última geração com super poderes e energia de longa duração. Abro janelas, converso com as estrelas, brinco de roda em cirandas de cantigas sempre lembradas. Fico distraída e passeio por distantes galáxias como se tivesse asas. Escrevo muito, nesses momentos de ser Alice.
No período de ser as duas, misturo lazer com trabalho e raramente se percebe as diferenças que existem entre a Maria e a Alice. Num processo de associação, consigo fazer com que as duas coabitem e sobrevivam numa mesma pessoa. Isso não quer dizer que é fácil colocar debaixo da mesma pele a diversidade de ambas. Embora já estejam habituadas com as características opostas de cada uma, muitas vezes, criam-se situações constrangedoras em que uma quer sorrir e a outra tem que chorar.
Ambivalentes e desiguais (milagre dos milagres), praticam a diplomacia e estabeleceram, há muito tempo atrás, um tratado de livre negociação entre si. Nunca discutem, apesar de divergirem em assuntos vários. A Maria e a Alice compreendem que a liberdade é o bem maior que possuem e dela fazem uso e abuso para preservar sua própria integridade pessoal.
Livres, não permitem que se aprisionem suas manifestações nos limites do cotidiano de viver. Deixam correr seus anseios e vontades como o vento que sopra independente da vontade de quem quer que seja e que se desloca para onde lhe apraz.
Uma cede lugar à outra sempre que o instante de se manifestar surge. Uma escreve prosa, a outra poesia. Impossível separá-las. Indivisíveis, se multiplicam em muitas. Mistérios da criação. Devaneios de ser Maria, Alice, mulher.
E, sendo Alice, hoje pela manhã, eu viajava nas ondas da imaginação, distraída, distante, sem perceber o que me rodeava, quando uma voz falou o meu nome: - Maria Alice! Repentinamente, voltei ao encontro da outra, a Maria e, juntas buscamos a origem do chamado.
Quem murmura o meu nome tão docemente e me traz de volta ao planeta Terra?
Constatei, surpresa, que esse alguém vinha, de um passado distante, dizer-me com o seu olhar terno e carinhoso, ser companheiro assíduo dessa metamorfose de Maria e de Alice refletida nas páginas que escrevo.
Trocamos algumas palavras, um abraço e o profundo olhar de quem se reconhece em meio à multidão como peregrinos de uma mesma espécie. Fez um bem imenso, a alma dessas duas figuras, esse encontro casual.
Um reencontro, quem sabe.
Mais uma vez, a Maria e a Alice juntam-se para continuar a caminhada, alheias ao que passou e prontas para o que vier. Miscigenação de nomes e de almas! Um tanto de Maria e algo de Alice.
E, concordando com a Cecília Meireles: “Tenho fases, como a lua. / Fases de andar escondida, / fases de vir para a rua...”
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